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Maria Lamas na Imprensa Torrejana (5)

A voz da escritora torrejana emudeceu por largos anos nas páginas do jornal “ O Almonda”. Um período de grande actividade intelectual irá aglutinar a sua vida na defesa dos direitos femininos e da Paz. São tempos marcados pelas perseguições e injustiças perpetradas por um regime odioso. Em 1949 é presa e levada para Caxias, sendo libertada sob caução em finais de Dezembro. No ano seguinte, sofre novamente a sórdida experiência das prisões fascistas, abalando a sua frágil saúde. Obrigada a exilar-se, regressa a Portugal no dia 3 de Dezembro de 1969. No seu país, é com enorme alegria e entusiasmo que vê chegar a revolução dos cravos. Uma data que simboliza o rejuvenescer da esperança e sonho de uma vida inteira. Participa em diversas manifestações ligadas aos primeiros passos da democracia.

Em 20 de Julho de 1974, um artigo do jornal “O Almonda”, anuncia o seu reencontro com a terra onde nasceu. Uma equipa da televisão acompanhou-a com o objectivo de fazer um documentário sobre a vida da mulher que aos oitenta anos ainda mantinha dentro de si o fulgor da juventude. O texto abre com a seguinte citação da escritora “ Quando eu era jovem era para aqui que vinha espraiar o meu olhar até ao longe, à Serra de Aire, adivinhando, para além dela todo o Mundo que eu idealizava e pelo qual lutava.”

O autor do artigo chega ao ponto de considerar “Maria Lamas, a maior figura intelectual jamais nascida em Torres Novas.” Em nosso entender, a afirmação peca por algum exagero. O solo torrejano deu ao mundo das artes e das letras outros nomes com a mesma importância e hombridade de Maria Lamas. Um desses vultos (falamos de Humberto Delgado) contou com a presença da escritora, na homenagem nacional, realizada pelos seus conterrâneos. Notícia desenvolvida nas páginas do jornal “O Almonda” em 28 de Setembro de 1974. O periódico iniciou o texto sobre o evento da seguinte forma: “ O dia 22 de Setembro de 1974 fica assinalado como um dia grande na vida do nosso concelho. Foi aqui que, pela primeira vez se fez ouvir, de modo inequívoco, a voz que pede justiça para o General que, num tempo em que era fácil ter medo, ousou enfrentar o sinistro regime de Salazar abalando os alicerces do regime fascista.

(…) Maria Lamas presidiu e foi a primeira oradora de um comício unitário.

Referiu o bárbaro assassinato do general e todo o largo da Brogueira se elevou: Morte à Pide! Morte à Pide! “

Nas palavras do Pe. Amílcar Fialho o acontecimento resultou numa “homenagem que foi a festa do povo”. Segundo o cronista: “ na Brogueira e no Boquilobo houve uma Festa autêntica, verdadeira, libertadora”.

Na semana seguinte (05-10-74), aparecem no jornal algumas entrevistas sobre o acontecimento, feitas a figuras importantes da cultura portuguesa. Maria Lamas foi um dos entrevistados. Descreve a homenagem a Humberto Delgado como a “afirmação de repúdio do fascismo, porque o General personifica de uma forma impressionante a luta antifascista e o amor pela liberdade e democracia”. Fala do evento como” uma condenação pública do horrendo crime de que foi vítima [Humberto Delgado].”

Mais à frente na entrevista, enaltece o papel do povo da Brogueira nesta iniciativa. Divulga-a como inteiramente “popular”, não sendo ideia de uma “comissão de honra (…). No dizer da escritora: “O povo sentiu força para organizar uma homenagem que emocionou Portugal inteiro.

Além disto, tem ainda o sentido de Unidade porque partiu do povo da Brogueira e mobilizou Portugal de Norte a Sul. Assim, aqui se deslocaram pessoas independentes e representantes de partidos bem como as massas populares, todos irmanados num sentimento comum, o que é importantíssimo (…).”

Na parte final da entrevista a escritora torrejana vinca o seu repúdio pelo assassinato de Humberto Delgado. E reitera a necessidade de se apurar os verdadeiros culpados por tão ignominioso acto.

É preciso esperar mais alguns anos para que as palavras de Maria Lamas voltem novamente às páginas principais do periódico. Aconteceu no dia 24 de Outubro de 1980, com uma mensagem da escritora dirigida a “O Almonda”, em sinal de reconhecimento e apreço. Mais uma vez é referenciado o indivisível elo que une a escritora à sua terra natal. Oiçamo-la: “Este jornal, que leio sempre com atenção e enternecimento, é um elo que me prende à terra onde nasci e vivi até aos 17 anos e à qual me prendem os mais profundos laços de ternura e saudade. Lisboa, 16 de Outubro de 1980. Maria Lamas.”

À escritora que tanto amou a sua terra faltava a homenagem merecida e há muito desejada pelos seus conterrâneos. A cerimónia ocorreu no dia no dia 11 de julho de 1980, no salão nobre da Câmara, perante os órgãos autárquicos e cidadãos torrejanos, onde lhe foi entregue a Medalha de Ouro do concelho de Torres Novas. No tributo, a emoção e a ternura jorravam dos olhos e do coração da mulher simples, estupefacta ante o enorme carinho devotado pelos torrejanos presentes. Em agradecimento, expressou estas sinceras palavras: “Não consigo dizer o que se passa em mim neste momento. É um enternecimento, é uma comoção inexplicável. Vou dizer uma palavra que pode não ser compreendida, mas eu digo-a no melhor sentido- é uma sensação de humildade, porque eu nada fiz, que não fosse corresponder à própria aspiração do meu coração e do meu cérebro. Ajudei, tanto quanto possível, as outras mulheres fazendo tudo quanto pude para minorar a miséria das crianças, mas eu acho que isto são sentimentos naturais e que devem estar ligados à condição humana. Enquanto o mundo não estiver assim, não haverá paz, nem felicidade, nem elevação espiritual.

A mulher como mãe, como companheira do homem, a mulher que é colaboradora valiosa, permanente, constante, em todos os campos, deve assumir a sua posição e responsabilidade na vida social do seu país e da sua época.”

Em outra parte do seu discurso, endereça o seguinte aviso ao povo torrejano sobre o verdadeiro caminho da construção de uma sociedade melhor e mais justa: “ O que há a fazer é uma grande revolução. Revolução que atinja as mulheres, os homens, as crianças, mas uma revolução naquele sentido dignificador e animador, de amparo, de ajuda e de justiça.”

Antes do trágico fim da escritora, “O Almonda” ainda publica, na sua primeira página, a entrega da medalha Eugenie Cotton (a mais alta condecoração da Federação Internacional de mulheres) a Maria Lamas, acontecida na casa do Alentejo (08/04/1983). O jornal endereça-lhe as maiores felicitações por tão merecida homenagem.

A 6 de Dezembro de 1983, acontece o desenlace da vida de uma das mulheres mais distintas do país, que nunca vacilou na defesa dos direitos humanos e da Paz. O seu legado é hoje incontornável para a história da emancipação feminina. A acompanhar a notícia da morte, “ O Almonda” publica o trabalho de Maria Lamas feito para o 25º aniversário do jornal, como forma de homenagear o seu exemplo e agradecer a sua entrega na luta por um mundo melhor e mais humano.

Decorrem, neste mês de Outubro, os 120 anos do nascimento da mulher que escreveu a sua vida em letras de ouro na História Nacional. Mulher do mundo, dotada de uma alma generosa e altruísta, que teve por missão amar os seus semelhantes, dando-lhes a coragem necessária para lutarem pela felicidade a que têm direito.

Mulher irmã, isenta de vaidades e ambições pessoais, que despendeu até ao seu “último alento, pelo ideal de justiça e fraterno Amor” (carta de 20-06-1949).

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