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Diamantino Martins, um projecto humanista

Poucos são os torrejanos que alguma vez ouviram falar de Diamantino Martins. Quem o conheceu descreve-o como uma pessoa humilde, tímida e bondosa. Dotado de uma rara inteligência e enorme cultura, o emérito pensador atingiu um lugar de destaque no panorama intelectual e filosófico do nosso século XX. Esteve no primeiro momento ligado à criação da Revista Portuguesa de Filosofia (1945), uma iniciativa que representou uma autêntica pedrada no charco cultural da sociedade portuguesa. No periódico abundam vários artigos da sua autoria que revelam um olhar atento sobre os grandes problemas e as crises culturais que atravessaram a sua época.

A reflexão desenvolvida por Diamantino Martins ultrapassa o mero ideário de natureza racional e abstracta. Influenciado pela corrente existencialista, foca toda a sua atenção no real vivido pelos seres particulares. Tomando como ponto de partida a célebre frase de Ortega Y Gasset “ eu sou eu e a minha circunstância”, chegou à constatação de que, na realidade, nós “somos em face da circunstância”. A liberdade humana realiza-se dentro de um quadro de possibilidades limitadas, onde o autêntico e total desenvolvimento da pessoa faz-se em diálogo com os outros. Para ele, este caminho constrói-se através da vida interior; hoje arredada das preocupações e interesses dos homens, sujeito a pressões externas e imerso no ruído tecnológico da sociedade do espectáculo.

O itinerário da vida de Diamantino Martins começa na modesta aldeia da Zibreira, onde nasceu em 26 de Julho de 1910. Estudante exemplar, frequentou com êxito o Liceu de Santarém e o Seminário de S. Martin de Trevejo (Cáceres). No ano de 1927, entra para a Companhia de Jesus, no Noviciado de Oya, na Galiza. A sua peregrinação cultural transporta-o para França, onde obteve a licenciatura, em Vals-le- Puy ( Haut Loire). A passagem por esta instituição levou-o a abraçar o campo da filosofia. Recebe enormes elogios por parte dos professores, em testemunho do perfeito domínio da língua francesa, clareza de ideias e fina capacidade de argumentação. Diamantino Martins ao relembrar os seus estudos pelas paragens do país gaulês, recordava com enorme saudade o inesquecível docente de Psicologia e especialista em Bergson, Blaise Romeyer. O doutoramento sobre Henri Bergson é a prova evidente da estreita ligação espiritual estabelecida entre o aluno e o mestre.

Quem teve o privilégio de assistir às suas aulas, destaca a clareza e rigor das exposições. Despertava o interesse e atenção dos alunos, rendidos à enorme cultura e actualidade dos seus conhecimentos. Diamantino Martins procurava informar-se sobre as novas investigações ou pensamentos que eram difundidos nos livros e revistas da especialidade. Apesar de ser por natureza reservado e tímido, estava sempre predisposto a ajudar os alunos, orientando-os nas pesquisas ou no esclarecimento de conteúdos disciplinares. Eram de extrema utilidade as notas e aditamentos que fazia nos seus textos colocados à disposição dos alunos.

Dominava, como poucos, áreas distintas do saber. De 1934 a 1936 iniciou a sua docência em Física, Biologia e Questões Filosóficas de Física e Biologia, no Instituto Superior de Filosofia de Braga. No ano de 1943, leccionou as cadeiras de Psicologia Racional e Psicologia Científica, e também por um curto período de tempo, Criteriologia. Fez parte do corpo docente da Escola de Enfermagem do Hospital de São Marcos e na Escola D. Luís de Castro, onde deu aulas de Psicologia e Deontologia. No interregno existente entre os dois períodos em que desenvolveu a actividade docente (1936-1943), formou-se em Teologia pela Universidade de Lovaina (Bélgica) e, no último ano, na Faculdade de Sarriá (Barcelona), fez as provas de doutoramento, obtendo a classificação máxima de 10/10 (summa cum laude).

Além de professor, Diamantino Martins esteve ligado ao exercício do sacerdócio (ordenado presbítero em 1939). Não nos esqueçamos que a sua formação intelectual é jesuítica, como a do se irmão, Mário Martins; outro grande expoente da cultura portuguesa. Nas suas interrogações sobre o mistério do homem, Deus ocupa um lugar importante. Os três primeiros livros do ilustre torrejano falam de uma única coisa: “ do homem e de Deus, dos seres e do Ser.”(Bergson, A intuição como método na Metafísica, 2ª ed.,pág. XV).

Indagou sobre a verdadeira felicidade do homem, pois via-o prisioneiro de falsos ídolos, alienado por uma realidade fantasmática onde os objectos e tecnologias subsumiram a natureza e a essência humana. Ao voltar-se primordialmente para a esfera do Ter em vez do Ser, o eu autêntico e a beleza do Mundo tornaram-se estranhos e ininteligíveis para o homem, apesar de viver rodeado de objectos e aparelhos que facilitam e atenuam as dificuldades da vida.

Diamantino Martins (Imagem do Mundo) evoca essa perda do sentido e da verdade no homem moderno, através de um breve trecho presente no livro de Sant-Exupéry (Terra dos Homens). O episódio aconteceu entre o escritor francês e um indivíduo oriundo do norte de África:

«Um árabe repetiu a Saint-Exupéry uma frase semelhante «Tu tens aviões e a T.S.F. [hoje diríamos a Internet] (…) mas não possuis a verdade».

O árabe chamava-se Muyane. O facto passou-se em Juby, um dia em que Muyane e o seu irmão Kemal convidaram Sant-Exupéry para a sua tenda. E o árabe insistiu:

– «Tu nunca te lamentas». «Para que servem os aviões e a tua T.S.F. (…), se não possuis a verdade?».

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