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Homem

  Adivinho-te na berma da noite, numa réstia de sol, na onda marinheira, na manhã de nuvens. Sei-te de braços vazios, as mãos inseguras lutando contra tudo. Perplexo, indeciso, timoneiro num barco de lianas e lágrimas, sei-te trancado num canto, as portas fechadas para barlavento, sentado na intemporalidade do teu querer,

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Por Deus, obrigada

  Desespero foi o que senti quando, esta manhã acordei com a convicção de não gostar de mim. Afastei a roupa, pus-me de pé e, olhando-me ao espelho, este disse-me exactamente a mesma coisa: – Cuidado, hoje não gostas de ti… O que havia de fazer para me gostar? O espelho

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Matilde

  Matilde viu a luz difusa no fundo da rua. Entrou a medo no canal sem saída. Sentou-se num velho portal. Nos cascos da noite, no silêncio encharcado de cardos bravos a envolvê-la de ruídos, a açoitá-la contra os muros negros da sua vida sem perspectivas de mudança, tudo a mastigar

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Palavras

  As palavras são como as cerejas, sorvemo-las umas atrás das outras procurando dar sentido prático à ideia nascente. Gosto de palavras, enfim, que me digam algo em sabedoria, altruísmo, alegria, apelo à lealdade, à verdade, à generosidade, à liberdade do pensamento, enfim, como da discussão é que nasce a luz,

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A Noiva do Sol

Hoje, Apolo deixou-se adormecer Não viu da noiva terra, o anel Que brilha nas manhãs, em redondel Beijando a sua luz, feita mulher. O seu véu de tule, enegreceu Oculto sob a bruma da manhã Não demores, e vem, cor de romã A tua amada ainda não cedeu. Aguarda-te, fria, espectante... Ainda crê no teu amor; espera O teu despertar,

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A chave da Vida

  O homem caminhou pela berma do tempo. Pensou; logo criou. O seu eu, insatisfeito, oriundo de um suspiro de água, quedou-se ante um templo verde de aroma silvestre. A música e a chama do tempo abriram-lhe as mãos, os braços, as espáduas. O homem viu-se envolvido pelos troncos sinuosos, onde

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Fado Breve

  Ao som do velho fado Margaridas Um lírio roxo a dedilhar paixão Em breves despedidas de Verão De Verão de mágoas esquecidas    Na boca da papoila escarlate Rasando o xaile negro; violetas Ornam a noite de mácula secreta Beijando a bruma, de negro, cinza e mate   Numa viela de jasmins às portas A cantadeira ergue a voz velada Segredo de

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Bem hajas…

  Bem hajas por esta areia doirada onde me sento e descanso, e pela estrada de sol que me leva até ao fim da linha do horizonte.   Bem hajas pela brisa prateada que passa pelo meu corpo com seda, e me leva a sonhar; sonhar porque sonhar é viver.   Bem hajas pelas vagas

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Olá, Mãe!

Minha Mãe Maria Fada da minha alegria Do teu ventre é que eu nasci No teu colo adormeci Embalada pelo amor Lembro mãe aquela flor Com que ornaste a minha fronte Se me levavas à fonte Ou aos arbustos do monte Saltitava, saltitava… Era feliz porque te amava! Tua voz de rapariga Cantava-me uma cantiga Cantiga leda e de bem Que saudades minha mãe! Como

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A Tesoura de Minha Mãe

  Minha mãe sentava-se numa cadeira pequena, e dizia-me com ar malandreco: – Ó nina, aloa-me aí essa teiga da costura. Fiz o mandato, sentando-me junto dela; gostava de a ver coser. Minha mãe foi dizendo: – Dá cá um trabalho pôr fundilhos nas calças do teu pai… e as ceroulas?

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«O Povo é Quem Mais Ordena»

  António Vinte e cinco de Abril de 1974. Sete e trinta da manhã. Acordei, ouvindo na rua um barulho novo. Uma onda de vozes cantava a boa nova. Que teria acontecido, meu Deus? Expectante, alvoraçada, saltei da cama. Liguei o rádio. O meu coração bateu em uníssono com a voz

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